12/08/2017

A Gangue do Cidadão de Bem

Eu só sei que os caras chegaram num sábado de sol qualquer, com muitos bons modos, mas cheios de sangue nos zóio. Eram senhores já idosos, na verdade. Vieram conversar com uma das donas da casa sobre o contrato, a venda e todas as minúcias legais. Se você está doente, sem emprego, perdeu sua mãe, não nos importa. Diziam isso com aquelas outras palavras brandas para ela, sorrindo, enquanto comiam do nosso bolo e tomavam nosso café.
Quero a grana, mesmo que seja trinta centavos - que se enriqueça o advogado, mas pouco é melhor que nada! Falou um dos herdeiros da menor parte da casa. Aquela mulher, minha mãe, não sabia entender como funciona a inflexibilidade da lei e o poder arrebatador das palavras escritas em um contrato que ela assinou sem ler - e até leu mas foi como se não, pois o discurso daqueles papéis estavam na mesma linguagem venenosa da gangue-dos-senhores-brancos-engravatados.

27/07/2017

na busca eterna por ser o senhor de mim mesmo
eu testo várias certezas
e texto tudo o que vier a tona

16/07/2017

alquimista da neuroquímica

Eu quis inventar e contar pra você a história do homenzinho que sempre pega todas as moedas que tem e as lava com água e sabão, uma por uma, cantando feliz como um personagem da disney.
Eu queria sair junto com você desse estado de alerta, de questionamento racional das coisas para outro estado onde não exista o tempo, a preocupação, os problemas de dinheiro, tempo, culpa.
como como como?

14/07/2017

Aplaude silencioso a música no escurinho de um show e esqueceu de tudo: os olhos brilham vermelhos, mas castanhos. Encontrou seu lugar no mar de acordes, se acomodou num canto de som qualquer. Queria sentir-me assim a vontade e por isso, sem dúvidas, acendi meu cigarro e pude acordar pela primeira vez no dia.

27/06/2017

Seu Reginaldo - ou o "Jovenzinho", como era chamado

O seu Reginaldo tinha um rosto de criança, mãos de criança e morreu sem mais nem menos, justamente como morrem as criancinhas. Lembro de sua caixa de ferramentas sempre bagunçada pela escola onde trabalhou comigo por alguns meses. Logo após o enterro todos da equipe fizeram o clássico favor de nos lembrar como não passamos de pó ou "merda nenhuma". E eu não podia discordar de um sentimento tão estratificado e absoluto ali, naquela hora sensível.
Dois dias após sua morte, faltou água na escola toda e ninguém sabia o que fazer. Sendo as manutenções sua associação mais óbvia, pensamos todos em seu Reginaldo. Nós, prostrados e inúteis diante da gigante caixa d'água e suas bombas, válvulas e canos. Pensei como era superficial nosso conhecimento perante àquele homem que fazia a manutenção e em como ignoramos tantas outras camadas de uma pessoa. 
Com certeza os sonhos dele não cabiam naquela caixa d'água.

06/06/2017

Discursinho de exploração interior


Passei tanto tempo escondendo esse meu eu de todos, cantando só para mim e escrevendo para tão poucos, sendo poeta para tão poucos e frequentemente sufocado dentro de mim. Vergonha, morrendo de vergonha sempre. Arrastando sentimentos pelos rodapés das casas e falando sempre mais baixo quando esse eu que produz, canta, escreve, lê e sente vinha a tona.
Eu queria explodir num sentimento de mundo, abrir o peito em flor e gritar: Eu sou todo cor e sem contornos! Sou volúvel por dentro e trêmulo por fora. Mesmo que toda essa ânsia por arte pareça ridícula, supérflua, mentirosa, forçada, boba, clichê, exagerada, espalhafatosa, dissonante do eu que conceberam de mim - mesmo assim - eu sou isso. Eu sou isso, no mais íntimo e atômico do meu ser eu sou arte e respiro arte mesmo sendo um artista tão patético, raso e preguiçoso.
Não vejo salvação nenhuma para minha vida fora da poesia, da prosa, do cinema, da fotografia, da música, da dança, do cinema, de achar engrçado e triste aquelas crianças correndo no parquinho, de encarar o muro cinza em frente ao ponto de ônibus e ali ver uma beleza de mãos humanas que trabalharam.
Sou isso - só isso - e passei tanto tempo querendo que acreditassem em mim. Me sinto um adolescente frustrado, uma criança mal resolvida por rnão ter me mostrado antes, gritado antes - agora é tão difícil, parece que sou outro que não eu mesmo. Será que é tarde demis agora? Será que o bonde já passou? É tão trabalhoso mudar o costume e o olhar dos terceiros, tão enfadonho quanto traalhos infinitos de escritório. Se recolocar nesse mundo tão engessado, achar uma nova posição para esse antigo e vivo "eu". Mas qual escolha eu tenho?

16/05/2017

As Pilhas

Na primeira vez eu era pequeno. Tão pequeno que usava ainda pijamas para dormir. Como todas as crianças que acordam subitamente de madrugada, acabei por descobrir um segredo. Vi meu pai na cozinha escura, sorrateiro e alerta feito luz que acende sozinha na rua. Com o braço esticado para a parede, pegou o único relógio da casa e tirou a pilha. “O tic-tac não me deixa dormir”, explicou mais para ele mesmo do que para mim.
Mesmo tendo visto esta cena de símbolos tão marcantes durante muitos anos, eu não conseguia entender a situação de forma completa. Julgava-o sistemático, paranoico e até medroso do tempo. Eis que numa noite qualquer, vinte tantos anos depois, me peguei pesquisando no Google “não sei o que fazer da minha vida”. Naquele momento, embalado pela valsa dos ponteiros, eu pude entendê-lo.

04/05/2017

Ficha que cai

a gente deixa tanta coisa passar sem se dar conta
e quando se dá conta de algo
quer descontinuar o mundo
e entrar na máquina do tempo (máquina que não existe)
para resolver uma pendência que é só nossa

parar o mundo
para salvar a si mesmo no passado
por isso o arrependimento
é tão egoísta e amargo

26/03/2017

Por Favor


Eu queria realmente conseguir me conectar com todas as pessoas.

É mais fácil pegar um avião e ir pra Bahia do que conhecer o quintal do meu vizinho, os sonhos do meu vizinho e todos os medos dele. Como eu queria um momento de humanidade com alguém, de conexão pura, simples e desinteressada, não forçada: sincera e leve. Queria ter esses momentos com todas as pessoas, principalmente os mais próximos: minha família, que mesmo vivendo décadas na mesma casa, ainda me soa tão longe, tão estruturalmente distante de mim, do que eu sou.


Eu também escondi tanta coisa do que eu sou - pros meus vizinhos, meus amigos, minha família. Sempre tentando me encaixar, eu tenho escondido muito, do que eu sinto, penso e sou. Há momentos de lucidez que olho pra minha mãe, pai e irmãs e falo: eu queria muito conhecer eles todos fora dessa casca que seus olhares me colocaram e que eu vesti sem relutar. Queria me mostrar, me gritar: E É POR ISSO QUE EU ESCREVO AQUI por quase dez anos! Me despindo e gritando por conexão real, querendo o mundo e as pessoas. Mas me sinto sozinho, me sinto forçado, não me sinto "lido" na vida real.

Eu queria poder mostrar a todos o texto que eu sou, cada linha de mim. É por isso que eu amo quando alguém se conecta a mim de alguma forma, por causa de algo, quando alguém engata um assunto empolgado comigo. Me sinto correspondido, amado. Amo quando vão comigo e quando me levam consigo pra dentro da alma, do íntimo, do sórdido. 
Por favor.

06/03/2017

Significado

A jarra de plástico tem formato de abacaxi
sua calça tem estampa de oncinha
e tem um peixe de plástico na parede do banheiro

tudo tão óbvio
que eu procuro te olhar nos olhos
e tento também achar significado em você, de forma meio paranoica
como se tudo representasse sempre uma outra coisa
"o que foi? que você tem?"

e quando não tenho resposta nenhuma, significado nenhum
(quem prefere viver triste do que confuso?)
símbolo nenhum
vejo que o amor é pleno até nessas lacunas
e meu peito explode de saudade

01/03/2017

Macaulay Culkin



por onde anda o Macaulay Culkin?
e outros tantos que não tiveram a sorte de serem de pedra
para não carregarem na carne o triste fardo de ser um símbolo eleito e vivo
símbolo de uma geração, uma época, uma cultura
arcar com esse estigma de "não-pessoa", de objeto atemporal, imutável
boneco de cera

"Macaulay Culkin foi fotografado pelo paparazzi
macaulay culkin mordeu uma pilha Duracell
macaulay culkin era menino tão talentoso!
macaulay culkin cheirando cola?
macaulay culkin está irreconhecível..."

Macaulay Culkin se olha no espelho
e não sabe muito bem o que dizer
por onde anda o Macaulay Culkin em 2017?

22/02/2017

Todo existencialismo é um pé no saco

Penso em todos os cacos de vidro que esperam nossos pés nas beiras das praias e na inutilidade deste e tantos outros pensamentos.
O que restou para mim? Fui criado junto aos "mitos", aos seres épicos, ídolos multimidiáticos, heróis urbanos munidos de opinião, "personalidade forte".
Como só ser, como ser alguém "mais ou menos" depois disso tudo? Depois da internet, depois de criar nosso perfil, blog, página e acreditar neles e se por nesse papel! Fazer dessa construção bizarra e irresponsável o nosso espelho?
Não me contento com essa resposta fácil de mim mesmo. Quero ser mais que isso que escrevo, que fotografo, que registro tão cuidadosamente para não pensarem de mim um coisa ou outra que eu não acho que sou. Quero muito ser mais que isso que inventei aqui.

13/02/2017

Balanço Geral de Segunda-Feira

explodo como uma panela de pressão que arranca o teto e suja a parede 

mentira. sou covarde.
eu aceito quieto, eu engulo. reclamo, mas reclamo fazendo, girando as engrenagens do sistema: Ficando feliz na sexta-feira e triste no domingo a noite.
Tem covardia maior?

tenho evitado discussões com ideias e pessoas desumanas, desiguais e cheias de ódio - mesmo sabendo que seria construtivo.
Tenho concordado e balançado a cabeça com sorriso amarelo - pura preguiça.
já não ligo para as normas da língua, da literatura e tenho enjoo de quem quer parecer inteligente (como eu já fiz e faço tanto nessa vida)

eu queria não me sentir ridículo cantando, escrevendo, amando ou fazendo seja lá o que fosse: mas é que parece que a gente nunca é a gente mesmo e dá vergonha passar por tantos personagens e fazer com que essa trama que é nossa vida faça ainda sentido.

Minha narrativa - a narrativa da minha vida - entrou em colapso, é inverossímil, é uma bagunça, é Balzac bêbado e com sono escrevendo besteira, errando nomes, lugares e coisas.

Me falaram que eu sou chato, um porre, porque eu não falo a coisa certa na hora certa nunca. E ficar tentando acertar isso tudo tem me matado:
me deixado feliz na sexta, triste no domingo. 

09/08/2016

A hora e a vez



A brincadeira acabou. Você é como a criança que saiu debaixo da cama-esconderijo. A porta se abriu ou se fechou, tanto faz. A hora exata, cravada em segundos, chegou. Chegou, pois chamam seu nome em alto e irrefutável tom. Não há desculpa, nem passatempo. Não há sala de espera. Agora é você. Agora é isso que construiu pra ser você, que inventou pra fugir do medo e se auto afirmar nessa solidão coletiva e abismal chamada de mundo. Criatura fantástica forjada ao acaso sempre com a mão na maçaneta, com os dedos no botão, com os olhos no papel. Pronto pra saber o próprio destino - não importa o que está acontecendo, só importa que é sua hora e vez. 

Você se olha no espelho sabendo de tudo. Tudo numa indevida lucidez; numa eterna prancha dos tubarões; de joelhos no chão com o teu carrasco já a prender a respiração. Esse então é você: pelado e frágil diante do espelho, sabendo da morte e do sofrimento antes da morte. Tenta ensaiar um sorriso, tenta! Sabendo das guerras, dos estupros, do câncer, das crianças que somem nos shoppings, das bombas que virão. Por fim, sabendo de si mesmo e do desenrolar da própria vida. Você fecha a torneira e olha os dentes tão brancos e então nada acontece. A hora H foi embora, o momento crucial passou desvairado como um ônibus vazio na madrugada e você ficou, de novo.

08/07/2016

Nós humanos, espalhados como areia em ventania

Existe uma descontinuidade eterna em nossa vida. Somos pedaços ambulantes espalhados pelo tempo.
Algum filósofo ou sociólogo com maior paciência que eu para estudar vai saber o conceito certo, pragmático. Eu não, eu não vou saber, eu só quero sentir.

Acontece essa descontinuidade, essa quebra, pois somos dotados de uma memória atemporal e um corpo físico fadado ao tempo, temporal. Esse é o clássico embate dualista mente versus corpo, tão visto, tão falado - e  sem saída.
A memória é atemporal por que traz exatamente a mesma sensação, o mesmo cheiro, o sentimento - tudo - de um momento passado (e futuro, talvez) que fisicamente é incapaz de se reproduzir no presente, no momento em que se lembra. O corpo físico está fadado aos mandos e desmandos do tempo, trancafiado no plano cartesiano tempo versus espaço. 
A mente não tem essa limitação; a mente está além do tempo. A memória pode se deter em qualquer lugar do tempo, como se pausa um vídeo - e pode deter-se até em memórias que não aconteceram, como Freud mostra em suas "Lembranças Encobridoras". Não importa a veracidade da lembrança, mas sim as sensações que ela traz, sensações que não deixam de serem reais.
Mas enfim, lembrar de um momento reproduz no corpo a mesma reação física, mental, sentimental de estar realmente vivendo este momento novamente. O que difere o lembrar, na mente, do viver, de corpo presente, é o impedimento de interagir com o passado. Imutáveis como pedra são as lembranças - mesmo que se desvaneçam com o tempo e possam ser reinterpretadas.
Isso tudo transforma os pensamentos fardos muito doloridos para carregarmos: A mente está num lugar, o corpo noutro. Essa cisão nos persegue e é parte integrante de nós. Somos pedaços ambulantes espalhados pelo tempo e a ânsia de juntar nossos pedaços nos leva a frustração e ao desgosto. Um problema sem solução, um paradoxo.
Queremos arrumar a vida como arrumamos a nossa casa: deixar tudo alinhado, limpo e organizado em caixinhas. Queremos sanar nossas pendências com as outras pessoas e deixar tudo em "pratos limpos", mas não podemos! Justamente por sermos seres anacrônicos, cindidos, espalhados pelo tempo. Conciliar passado e presente - mente e corpo, cultura e natureza- é como querer matar o passarinho ontem atirando uma pedra hoje.

Sabe o foda? O foda mesmo? Tudo isso é óbvio demais pra ser falado, pra ser posto em texto ou em fala. Lendo e relendo tudo isso dou risada pela obviedade da nossa constituição dicotômica. Como é bobo o sofrimento humano. Como são bobas nossas aflições.



06/07/2016

Nossa, faz tanto tempo, não faz? Eu só queria dizer que eu passando pelas ruas de Jaçanã vi um motel do lado de um ferro-velho e, por um micro momento que logo após se perdeu, pude saber tudo o que era a minha cidade e tudo o que ela diz . Vi toda nossa crença pretensamente científica, nossas linhas invisíveis de ligação quase religiosa com o dito progresso - tudo tão universal que Levi Strauss até ficaria feliz. Eu soube onde todas as pessoas estavam indo. Toda essa estrutura fantasmagórica que faz coexistirem motéis e ferros-velhos.

05/04/2016

Sentimento de Ir

A sensação única de estar numa rodoviária de longos percursos. Este é o momento crucial, de tamanho sentimento e de turbilhão das vidas e suas possibilidades. Neste lugar só há a sensação de ver a moeda ser jogada num cara ou coroa eterno, como num gif bobo da internet: ficamos presos ao momento exato em que a moeda gira no ar das incertezas, sem jamais saber o resultado.

Essa sensação de imensidão; de únicas oportunidades; de tudo no nada, com certeza já foi sentida por muitos. Alguns pensadores definiriam isso apenas como "modernidade". Até mesmo Robert Johnson, ao gravar uma das primeiras músicas que se poderia gravar no mundo - Love in Vain, que se passa numa estação de trem - devia estar pensando nisso. E olha que não há nada mais justo que o blues para incorporar esse sentimento de rodoviária.

Minha primeira pontada no coração assim, de furacão, foi ao visitar um amigo querido em Minas Gerais. Voltei outra vez e outra ainda até que passei a voltar sem vê-lo. Retornei somente para Minas, que continuava lá parada e intocada. Minas Gerais, muito diferente de nós, humanos, com nossos tantos caminhos que cismam em desencontrar-se, o nosso movimento para lugar nenhum. Nossas palavras que não nos abrem estradas, mas sim buracos e abismos.

Só lhe digo que pessoas continuam com suas mochilas nas costas, esperando seus ônibus e aviões e caronas. Digo também que esse tipo, que viaja de canto a outro, incomoda demais a todos nós. Foi assim com os ciganos, os negros, os judeus e outros tantos povos nas guerras e crises: os mochileiros vira-mundo, os bolivianos discriminados em SP... e sabe o que mata?

Mata ver que essas pessoas assumiram percorrer um caminho, tragar a estrada, ao contrário de todos nós que pretensiosamente achamos que o caminho é só um meio para se chegar a algo maior, que já revelamos o sentido de nosso caminhar. Essas pessoas conseguiram sentir que o caminho é o próprio objetivo de uma vida - não há nada pra frente ou para trás, a não ser a própria andança.

15/02/2016

Dos Muros

http://petjair.blogspot.com.br/2012/03/experimentacoes-abstratas.html


Tudo tem um limite, você sabe. Uma linha traçada no chão ou no ar que separa algo de outra coisa ou acaba essa primeira para um nada, para um abismo desconhecido.

E quando falo tudo, é tudo mesmo. Qualquer mínima besteira, qualquer gesto, pensamento ou até mesmo olhar. Ninguém quer passar pelas linhas-limite - ainda mais suas próprias. 

A gente se mapeia quase que geograficamente. As linhas mais totais chegam até a se materializar em muros, cercas e portas físicas, concretas; Documentos, passaportes, papeis e sobrenomes.

Nossos muros físicos, nossa ânsia por privacidade, nossas máscaras diárias são um reflexo dos nossos limites inventados. "nossos" e "inventados" por que são coletivos como a roupa invisível do rei.

18/12/2015

cucurrucucu

pense numa pomba que machucou a perna (e talvez até a asa) e manca, mas ninguém se importa - pois as pombas são todas iguais e são muitas - os cachorros são mais legais e fiéis, eles dizem.

não há movimentos pela vida das pombas, adoção de pombas, ou pombas bonitinhas na internet com touquinhas de papai-noel brilhando e dando bom dia.

os velhinhos que jogam migalhas às pombas todo domingo - eles são quase odiados. Importar-se com pombas só poderia significar mesmo a iminência da morte que os puxa os cabelos pouco a pouco.

e nada disso eu digo com pena ou com protesto ou com a bandeira das pombas "salvadoras da bondade humana" - só percebo como elegemos certas criaturas para nossa vida, para nos sentirmos tão importantes nessa cadeia alimentar sentimental da qual se nutre o ego.

lembrei-me de um conhecido que cumpria pena numa instituição que trabalhei. o nome dele era Vaderly e ocasionalmente caçava pombas na rua pra vender - nunca entendi como - mas dizia que as brancas valiam mais.

Eu imaginava aquela situação e meio que ria: Um homem calvo e gordinho caçando pombas na rua em pleno 2014

uma outra passagem: em outra instituição que trabalhei, também uma escola. um professor de educação física aposentado fazia trabalhos voluntários. Ele levava no final do ano uma espingarda de chumbinho - e como este é um texto sobre as pombas, vocês podem imaginar.

e você, já parou pra pensar sobre a vida das pombas? Ignoramos tantas coisas e fingimos saber de tantas outras.